2012 | Making of : Vai um Cafenol aí? – Parte I

Por Mila Targino

Vocês sabem que existem muitas lendas na Internet. Na área da fotografia, elas se multiplicam, sobretudo, no que diz respeito à química do ‘antigo’ laboratório fotográfico. Há um certo fetiche com as fórmulas empregadas em películas e papéis à base de prata, pois elas estão cada vez mais raras. É desse cenário de revival químico-analógico que advém uma das mais divertidas histórias sobre reveladores e coisas afins. Em um determinado site (abaixo listado) encontramos uma maneira de revelar filme preto e branco – tanto de imagem fotográfica, quanto de imagem cinematográfica – com produtos típicos de supermercado. O autor jura que a união de café instantâneo, com ácido ascórbico e carbonato de sódio se torna um revelador capaz de salvar o mais precioso dos negativos.

Adoro mitologias, amo laboratório preto e branco, e me jogo, sem paraquedas, em uma boa experiência, no entanto, jamais coloquei em prática o tal cafenol. Hoje conto a vocês que passei uma manhã incrivelmente divertida com amigos que realizaram a façanha. Os fotógrafos de O Santo Ateliê botaram para decidir e fizeram acontecer um cafenol todo diferente, re-inventado, mais bonito e eficaz que os realizados fora do país. As tarefas foram divididas: Beto Figueroa, Tom Cabral, Rafael Medeiros se envolveram no processo de edição das imagens a serem impressas, Renato Spencer e Tiago Calazans tomaram conta do laboratório mais efetivamente. Os que editaram também ficaram ao pé do laboratório entoando mantras com bons fluidos para que tudo desse certo.

A receita por eles narrada é muito divertida, melhor ainda são os métodos de medição de ‘químicos’ empregados no processo: uma colher e xícara de cafezinho, nada mais. Nesse caso, o mínimo nunca fez tanta diferença na criatividade, no quantum de experiência sensível e no apuro da paciência. Não dá para trabalhar com o cafenol sem estar muito atento à transformação da matéria. Para produzi-lo foram necessárias duas diluições específicas, uma com o café e ácido ascórbico e a outra com o carbonato. Spencer garante que juntas, as duas soluções produzem um cheiro forte de café envelhecido com uma espuma laranja bastante estranha. Ainda explica que a solução fica bem escura e o tom que fica na imagem tem um ar envelhecido.

Mas, insatisfeitos com os resultados não tão bons com película em preto e branco, Renato Spencer e Tiago Calazans, criaram uma nova maneira de uso da fórmula. Ao invés de praticá-la com filmes, como incitavam os sites na internet, os meninos acharam bem melhor o resultado do sistema no papel. Mas, logicamente, que a empreitada exigiu uma adaptação do modo de operação da fórmula, pois do negativo ao papel restam diferenças abismais, a começar pelo tipo de prata, nível de latitude da emulsão, etc…

Logo os fotógrafos descobriram que o cafenol revela bem as luzes medianas da imagem, em compensação o preto profundo e o branco límpido são inexistentes. Dessa observação veio a grande sacada dos experimentadores, eles colocaram, antes de qualquer coisa, o papel preto e branco no revelador universal da Ilford para dar uma primeira revelada nas baixas e altas luzes. Com a melhora do contraste geral nesse primeiro banho, passaram a cópia para uma finalização em banheira com revelador de cafenol. O resultado é incrivelmente lindo, mas parece uma viragem furta-cor.

O coletivo como um todo tem bastante consciência do empenho realizado. Para que chegassem a tal feito, foram necessários alguns anos de pesquisa, Spencer contabiliza que desde 2009 trabalha com o cafenol sempre buscando adaptá-lo. Contudo, essa fórmula por si só não diria muito sobre as ideias que tomavam conta da cabeça dos fotógrafos nesses últimos tempos. Quem tem menos de trinta anos, talvez nunca venha a saber (ao menos não na ordem dos afetos) o que foi ter sido tomado, meio de supetão, pelo universo do binário. Mas, foi justo da ressaca do declínio do analógico que surgiu o salto qualitativo do empreendimento fotográfico do Santo. Os fotógrafos realizaram uma bela revisão dessa passagem do análogo ao digital que, há muito, intrigava o grupo. O caminho criativo que estão trilhando se chama de iHíbrido, em uma menção aos dispositivos móveis tão populares nessa modernidade contemporânea.

Foi a partir dessa proposta de imagem complexa que o cafenol foi utilizado, aliando as características do digital àquelas do analógico. Não seria um erro dizer que o cafenol intermediou um sistema de captação de imagem misto: antes dele, um tanto digital; depois dele, um quase analógico. Vou contar para vocês como os fotógrafos dobraram os pixels transformando-os em grão de haletos de prata. Mas isso só no próximo post quando revelarei a façanha! O Santo Ateliê se apresentará no Pequeno Encontro da Fotografia, quem quiser saber mais sobre Cafenol e iHíbrido é só participar das discussões na mesa dedicada aos coletivos fotográficos.

Enquanto o novo post não chega, deixo vocês na companhia dos sites sobre cafenol: Caffenol e Caffenol.org. É diversão garantida! Tem também uma videoaula em inglês. Bem explicadinha. A última indicação é cafenol para revelar super 8, muito bonitinho.

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