2012 | iHíbrido: do digital ao analógico em pura diversão

Por Mila Targino

A traquitana. Foto: Mila Targino

No post passado conversamos sobre o Cafenol de O Santo Ateliê. Mas tinha dito a vocês que a tal fórmula química, dedicada à revelação de papéis preto e branco, só fez sentido no trabalho desse coletivo na medida em que foi tomada para pensar uma nova relação de sistemas de produção de imagem. Pois bem, tal sistema se chama iHíbrido ele existe através de uma proeza incrível: faz um caminho que vai do mais puro digital ao mais complexo analógico.
Explico melhor. Os fotógrafos de O Santo estão apaixonados por tecnologias móveis, coqueluche em nossa modernidade contemporânea. Todos os iCoisas possíveis e imagináveis estão em teste, fazem parte do cotidiano mais prosaico de todos os fotógrafos que compõem o coletivo. Mas ao que tudo indica, a rápida naturalização desses processos de captação de imagem digital cansou um pouco. Brincar com esses espaços da linguagem digital foi um imperativo que se impôs ao grupo.
Reinventar esses sistemas, em favor da produção de imagens mais inventivas, incitou a imaginação no ‘espírito do coletivo’. Os fotógrafos logo começaram a criar máquinas para transpor uma imagem em tela multi-touch para um papel fotográfico preto e branco. A traquitana eleita foi construída a partir de uma adaptação do clássico ampliador de laboratório para processos à base de prata que passou a receber, no próprio lugar disponível ao negativo, uma tecnologia móvel do tipo iPhone. Nem dá para dizer que tal aparelho figura como se fosse um negativo, uma coisa não tem nada haver com a outra. Talvez figure, mais propriamente, como um spot de luz.
Confesso a vocês que, quando cheguei a minha casa, já tendo findado a conversa com os fotógrafos, quase morri de tanto rir. O ampliador foi completamente subvertido, passou a projetar uma imagem em positivo a partir de uma luz que, até onde ia a minha ignorância, parecia muito fraca. Mais que nada, o mobile se encaixa perfeitamente, sua luz tem força para sensibilizar a prata do papel fotográfico, e o resultado da imagem é deveras delicado: baixa acutância, produzindo uma representação sem linhas de bordas definidas.
Logicamente que operar a tal máquina precisa destreza e muitas experiências. As primeiras cópias sofreram bastante, bem mais que os integrantes do coletivo, à espera de um resultado, digamos assim, mais inteligível. O papel fotográfico preto e branco, após receber a energia luminosa do dispositivo móvel, é levado ao banho duplo de revelador universal e de cafenol, seguidos dos tradicionais banhos de interrupção e fixação. A imagem advinda do iHíbrido tem baixíssimo contraste, nesse sentido ela é um tanto tristonha. Não possui o contraste dos negativos em preto e branco quando utilizados para a captação de imagens nos trópicos. Em compensação, a imagem apresenta muitos tons de cinza com escala razoavelmente ampla. É bonito, mas de uma beleza diferente, à qual definitivamente não estamos muito habituados.

Foto: O Santo Ateliê 

Acompanhei atentamente a maneira como os fotógrafos chegaram a essa imagem muito fluida, que, além de pouca definição e nuances furta-cor, trocou, a partir do uso de uma viragem à base de selênio, o velho cloreto de prata do papel fotográfico por selenito de prata. Foi uma manhã inteira junto ao virador que, por sinal, melhorou bastante o baixo contraste dado pela tecnologia do iHíbrido. É gente, as viragens de selênio possuem esses estranhos poderes, aumentam contrastes, fazem aparecer áreas das cópias meio apagadinhas, parece mágica. Além de cópias com um ponto latitudinal muito mais amplo, com mais detalhes nas baixas luzes, ganhamos, pelo menos, 150 anos de estabilidade. O selenito de prata é muito estável e suporta as intempéries da natureza conservando o material fotografado por longa data. Em tempos de híbridos digitais, essas experiências encantam a vida longe do pragmatismo do mundo binário, agora, submetido, pelos santos, a um laboratório para lá de fotográfico.

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